Ele nasceu em pranto num dia santo coberto pela nébula.
A sua mãe sorriu, e o parteiro se rejubilou ao ver tão dotada criança,
que sorria de olhos abertos ao mundo,
mesmo depois de tão atribulada canseira.
Era uma quinta-feira, enublada quinta feira, e ao juízo se lançou,
Emudecido e nú, tal rico pequeno,
Como só se viu um tal coberto de feno.
Os seus olhos azuis, tolhidos de uma leveza de seda,
Cairam na sua tenra infância, em infame exuberância,
De um molho tenro de literatura.
Oh, salve-se o pequeno! Ele irou-se em pleno,
à luz de tanta reles cultura.
O mundo reluzia lá fora, um mundo cantante e ousado para ele,
E ao vê-lo ali assim, tão brilhante e convidativo,
Ardeu ao brilho dos olhos tal monte abusivo,
E saltou desesperado para o mundo que o esperava,
Em todo o lado, do outro lado.
Mas esse, que caia esse mundo,
Outrora tão livre e interessante,
Que se vê agora com tal murchesa incessante,
Entorpecido, pequeno e feio.
Principalmente feio, bem feio.
As suas barbas negras entrelaçavam-se pelas Ásias,
Onde ele acalmou toda a sua luta energética pela vida.
Agora, soava a louco, quando se abria em clamores,
Por entre os incensos odores que se dissipavam em redor,
Dizendo : " Vi Buda, vi Buda ! Deus meu, vi Buda ! "
E por entre os risos jocosos da multidão,
Destacou-se um bêbado senhor, que reclamou:
" E com quem estava Buda ? " Pensando para si :
"Oh, que personagem mais sizuda. "
E o nosso protagonista respondeu, bem seguro do que viu:
" Meu emborrachado amigo, ele estava pisando o seu umbigo,
Para o impedir de rebentar ! "
" E mais mil morfeus estavam debaixo dele, mortos, sem pele,
À vista todo o seu interior. "
E com mais dor que desagrado se viram os jocosos,
Agora moribundos furiosos,
Cheios de vontade de o dilacerar.
Decidiram-se no ataque,
mas, porém, no meio de toda aquela clarividência,
Ruiu em si e dissipou-se mesmo ali, naquela sala.
E em toda aquela aparência de feitiço,
Cruel e roliço, dissipante de tal desejo furioso,
A multidão dilacerou-se a si própria,
Desde o jovem mais ocioso ao renegado sem discórdia.
Paulo Oliveira
quinta-feira, 9 de abril de 2009
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